O tempo gasto no transporte, o peso do aluguel e a disponibilidade de serviços de cuidado raramente aparecem juntos no debate sobre crescimento econômico. Para a Vida em Conta, essas condições ajudam a medir se os resultados da economia chegam à população. Lançada em setembro, a iniciativa reúne mais de uma centena de economistas e mais de 60 organizações da sociedade civil. A articulação é conduzida pela Plataforma Cipó e pelo Transforma.
O ponto de partida é o documento Diretrizes para um Projeto de País Justo, Sustentável e Soberano. Seus autores reconhecem a retomada de políticas públicas e de instrumentos de planejamento desde 2023, mas argumentam que a melhora dos indicadores econômicos não se traduz, por si só, em renda disponível, tempo livre e acesso a serviços. Trata-se do diagnóstico apresentado pela iniciativa para orientar o debate sobre políticas públicas.
“O Transforma participa da coordenação dessa articulação para promover uma agenda econômica voltada à melhoria das condições concretas de vida das pessoas. Essa ação visa trazer o debate econômico mais perto da discussão sobre o que está no centro das preocupações cotidianas: o custo de vida, a economia dos cuidados, a expansão e a melhoria dos serviços públicos e a criação de políticas públicas que realmente proponham soluções para essas questões”, explica Marco Antonio Rocha, diretor executivo do Transforma e professor do IE/Unicamp.
Do orçamento doméstico à estrutura produtiva
As cinco diretrizes começam pelo enfrentamento das desigualdades de renda, riqueza, gênero, raça e território. A segunda relaciona custo de vida e disponibilidade de tempo: o documento examina como despesas com moradia e transporte, deslocamentos longos e trabalho de cuidado afetam as famílias. Nesse eixo, propõe ampliar serviços e considerar o tempo, além da renda, na formulação de políticas públicas.
As duas diretrizes seguintes tratam da capacidade produtiva do país. Uma defende investimentos em tecnologia, infraestrutura digital e cadeias estratégicas para reduzir dependências externas. A outra propõe articular políticas industriais, de inovação, educação e qualificação profissional para ampliar a oferta de empregos compatíveis com a formação dos trabalhadores. O documento sustenta que a expansão da escolaridade não foi acompanhada, no mesmo ritmo, pela criação dessas ocupações.
É nesse encontro entre transformação produtiva e direitos sociais que Rocha situa a proposta. “O Brasil precisa ter a ambição de definir uma agenda de transformação social diante do novo cenário global. Não podemos ficar presos apenas às discussões fiscais de curto prazo frente às mudanças climáticas, tecnológicas e nos processos de trabalho. Precisamos avançar em uma agenda que nos livre dos retrocessos e garanta oportunidades econômicas e direitos sociais”, afirma.
A quinta diretriz propõe tornar a tributação mais progressiva e aproximar a destinação dos recursos públicos das prioridades sociais, produtivas e ambientais apresentadas no documento. O texto também defende avaliar quem recebe benefícios fiscais e quais resultados eles produzem. As diretrizes estabelecem objetivos; sua tradução em medidas, fontes de financiamento e critérios de avaliação dependerá de formulações posteriores.
Segundo o documento-base, esta é a primeira etapa de um trabalho que prevê propostas para o início do próximo ciclo de governo e um banco de iniciativas de políticas públicas. Conheça o site do projeto https://vidaemcontabrasil.org/
