As mudanças na distribuição do poder mundial, a crise do neoliberalismo e a crescente presença política do Sul Global orientaram a primeira edição do Festival de Ideias, realizada em 20 de junho de 2024, na Unicamp. Sob o tema “Poder e Prosperidade em um Mundo Multipolar”, o encontro reuniu lideranças políticas, pesquisadores, ativistas, sindicalistas e representantes da sociedade civil para discutir o futuro da ordem internacional e o papel do Brasil nesse processo.
Promovido pela Internacional Progressista, pela Phenomenal World e pelo Transforma, o festival contou com participantes de 20 países e ocupou o Teatro de Arena e auditórios dos institutos de Economia (IE) e de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). A programação se estendeu por cerca de 11 horas e foi acompanhada presencialmente por centenas de pessoas, além do público que assistiu às transmissões pela internet.
O encontro ocorreu durante a presidência brasileira do G20, quando o governo buscava incluir na agenda internacional o combate à fome, a redução das desigualdades, a tributação dos super-ricos e o financiamento da transição ecológica. O Brasil também procurava fortalecer o multilateralismo e ampliar a participação dos países em desenvolvimento nas decisões sobre comércio, finanças, tecnologia e política ambiental.
A edição marcou ainda o lançamento público do Transforma, criado no Instituto de Economia como espaço de pesquisa, formulação de políticas e comunicação. A proposta apresentada durante o festival foi aproximar a produção acadêmica das disputas econômicas e sociais, além de constituir redes de cooperação entre universidades, movimentos, governos e organizações internacionais.
Na sessão de abertura, o professor Pedro Rossi situou o encontro no processo de reorganização da economia mundial observado desde a crise de 2008. O reitor Antonio José Meirelles destacou a trajetória da Unicamp na defesa da democracia, enquanto Célio Hiratuka e Andreia Galvão relacionaram o festival à tradição crítica do IE e do IFCH. Varsha Gandikota-Nellutla, da Internacional Progressista, defendeu uma solidariedade internacional capaz de orientar ações contra a fome, os conflitos e as desigualdades.
Multipolaridade e disputa pela ordem internacional
A discussão sobre o lugar do Brasil foi desenvolvida na mesa “O legado da presidência brasileira no G20”. O debate tratou das iniciativas apresentadas pelo país para inserir desigualdade, tributação internacional e financiamento climático na agenda do grupo. Entre as propostas examinadas estavam a cobrança de impostos sobre grandes fortunas, o financiamento de políticas de combate à fome e a criação de instrumentos para adaptação, perdas e danos causados por eventos climáticos.
Os participantes observaram que o G20 reúne países com interesses econômicos e geopolíticos distintos, o que limita a construção de acordos. Ainda assim, a presidência brasileira foi apresentada como oportunidade para relacionar temas domésticos a problemas internacionais, entre eles dívida dos países pobres, concentração da riqueza, transição ecológica e ampliação da participação social nas negociações.
A mesa “Polarização e luta de classes no século XXI” reuniu experiências da África, da Ásia, da Europa e das Américas para examinar protestos, movimentos populares e formas de organização política. As intervenções discutiram as dificuldades enfrentadas por mobilizações que contestam a concentração de poder, mas nem sempre conseguem transformar insatisfação social em estruturas políticas duradouras.
Em “Neoliberalismo: morto, vivo ou zumbi?”, os participantes apresentaram diagnósticos distintos sobre a permanência do modelo. Juliane Furno sustentou que a expansão dos gastos públicos nas economias centrais após a pandemia não significou o abandono do neoliberalismo, especialmente porque austeridade, desregulamentação e redução dos direitos sociais continuam condicionando os países periféricos. Jodi Dean abordou a expansão do rentismo e das relações de dependência, enquanto Armando Boito analisou a base política e social que sustenta o modelo.
A sessão especial “Rumo a uma Nova Ordem Internacional” reuniu Karol Cariola, Walden Bello, Mariela Castro e Andrés Arauz, sob mediação de David Adler. O painel discutiu soberania, integração regional, cooperação entre países do Sul Global e construção de instituições capazes de reduzir a dependência econômica e política em relação às potências tradicionais.
Trabalho, direitos e proteção social
As transformações produtivas e seus efeitos sobre os trabalhadores foram discutidos na mesa “Poder dos trabalhadores em uma nova ordem internacional”. Sindicalistas e representantes políticos da América Latina, África, Ásia e Europa analisaram precarização, reformas trabalhistas, trabalho por plataformas e mudanças provocadas pela inteligência artificial.
O debate indicou que a digitalização alterou o local de trabalho, os vínculos de contratação e as formas de controle exercidas pelas empresas. Também examinou os limites das estruturas sindicais tradicionais diante da informalidade e do trabalho disperso. A coordenação internacional apareceu como uma condição para enfrentar corporações que operam em vários países e organizam suas cadeias produtivas de acordo com diferenças salariais, tributárias e regulatórias.
Na mesa “Renda básica universal e o futuro das políticas sociais no Sul Global”, Eduardo Suplicy, Letícia Bartholo, Jurgen De Wispelaere, Nikhil Dey, Eduardo Zanatta e Eduardo Moreira discutiram renda, cidadania e proteção social. As intervenções abordaram as características de uma renda básica universal, individual, regular e incondicional, além de suas relações com sistemas focalizados, cadastros públicos, políticas alimentares e mercado de trabalho.
Experiências brasileiras e indianas mostraram que o desenho institucional interfere no alcance dos programas. Critérios de acesso, condicionalidades, valor dos benefícios e capacidade administrativa dos governos locais podem ampliar ou restringir a proteção. A discussão também relacionou renda básica à autonomia individual e à possibilidade de participação social.
As desigualdades que estruturam o trabalho, a renda e a representação política foram aprofundadas em “Interseccionalidade entre gênero, raça e classe na luta por justiça global”. Participantes do Brasil, da Índia, do Curdistão e do Quênia discutiram as experiências de mulheres negras, dalits, trabalhadoras informais e populações submetidas a formas combinadas de discriminação. O painel destacou o papel das organizações comunitárias e dos movimentos conduzidos por grupos diretamente afetados.
Estado, crise climática e transformação produtiva
A mesa “Estado e transformação ecológica, social e tecnológica” analisou a capacidade do poder público de coordenar investimentos, inovação e políticas industriais. Carlos Gadelha, André Roncaglia, Scott Ludlam e Pedro Marques discutiram os riscos de captura do Estado por interesses privados e a necessidade de incorporar movimentos sociais, conhecimentos locais e objetivos distributivos à transição.
O debate abordou a relação entre tecnologia e soberania, com atenção ao desenvolvimento de capacidades produtivas nacionais. A transformação ecológica foi tratada como processo que envolve infraestrutura, saúde, indústria e trabalho, além da substituição de fontes energéticas. Nesse sentido, políticas públicas precisam definir quais setores serão apoiados, como os recursos serão distribuídos e quem participará das decisões.
A dimensão territorial apareceu na mesa “Crise climática, resiliência e desenvolvimento: das cidades para o mundo”. Realizado poucas semanas após as enchentes no Rio Grande do Sul, o painel discutiu adaptação, planejamento urbano, prevenção de desastres e atuação dos governos locais. Os participantes relacionaram vulnerabilidade climática a desigualdade de renda, acesso à moradia, infraestrutura e capacidade de resposta dos serviços públicos.
Moeda, soberania e direito internacional
A arquitetura financeira global foi examinada em “Dominância do dólar e mutações da hierarquia monetária internacional”. Ramaa Vasudevan, Herman Mark Schwartz, Andrés Arauz e Matías Vernengo discutiram os mecanismos que sustentam a centralidade do dólar e a assimetria entre países com diferentes níveis de acesso ao crédito e às reservas internacionais.
Os participantes avaliaram que a moeda norte-americana continuaria ocupando posição central, apesar da expansão da China e das iniciativas de desdolarização. Arauz apresentou a proposta de um “Pix Sul”, sistema de pagamentos regionais que permitiria transferências diretas entre países latino-americanos, reduziria custos de intermediação e criaria alternativas à dependência dos bancos dos Estados Unidos.
Na mesa “Palestina, imperialismo e o futuro do direito internacional”, juristas e ativistas analisaram a guerra em Gaza, o colonialismo e a aplicação seletiva das normas internacionais. As intervenções questionaram a capacidade das instituições multilaterais de responsabilizar Estados apoiados pelas grandes potências e situaram a luta palestina no conjunto dos movimentos anticoloniais.
A plenária final, “O poder das ideias”, reuniu lideranças políticas da América Latina e da Europa. As falas relacionaram democracia, soberania econômica e enfrentamento à extrema direita, além de defenderem maior coordenação entre partidos, movimentos sociais, sindicatos, universidades e centros de pesquisa.
Ao articular economia política, relações internacionais, trabalho, clima e direitos, o Festival de Ideias inaugurou uma rede de reflexão que teria continuidade nas atividades do Transforma e na segunda edição do encontro, realizada em 2025.
Os registros completos estão disponíveis na playlist do Festival de Ideias 2024.
