A expressão “nova economia” passou a ocupar programas governamentais, documentos empresariais e debates internacionais. Seu significado, porém, permanece em disputa. Pode designar desde a expansão dos negócios digitais até estratégias de transição energética que preservam a concentração de renda, o controle privado dos recursos naturais e a posição subordinada dos países em desenvolvimento. Também pode representar uma revisão mais ampla das formas de produzir, distribuir riqueza e organizar a atuação do Estado.
É nessa segunda perspectiva que se insere a publicação Uma Nova Economia para o Brasil: bases para um projeto de desenvolvimento justo, sustentável e soberano, elaborado pela Plataforma CIPÓ e pelo Transforma. O documento apresenta uma definição política do conceito, organiza seus princípios e propõe seis eixos de atuação, associados a instrumentos de políticas públicas.
O ponto de partida é o diagnóstico de uma “policrise”, caracterizada pela sobreposição de crises econômicas, sociais, climáticas, democráticas e geopolíticas. Como esses processos se conectam e se reforçam, o texto sustenta que respostas setoriais ou ajustes marginais têm alcance limitado. A proposta, portanto, não consiste em acrescentar medidas ambientais ou sociais ao modelo vigente, mas em alterar os critérios que orientam o desenvolvimento.
No caso brasileiro, essa discussão envolve um problema histórico. Embora o país tenha ampliado a distribuição de renda, o acesso a direitos, a participação social e os investimentos em ciência, tecnologia e inovação durante determinados períodos, esses avanços não modificaram de forma duradoura a estrutura produtiva nem superaram dependências financeiras e tecnológicas. O documento situa esse debate também no contexto eleitoral de 2026, ao defender que a continuidade de políticas sociais deve ser acompanhada por mudanças estruturais.
Escolha política
A nova economia é definida como uma escolha sobre prioridades nacionais, distribuição de recursos e organização do poder econômico. Nessa abordagem, nenhuma decisão econômica é inteiramente neutra: regras fiscais, impostos, crédito público, regulação do trabalho, compras governamentais e acordos internacionais produzem efeitos distintos entre grupos sociais, setores produtivos e territórios.
O livreto também delimita o que não considera uma nova economia. Propostas que adotam termos como inclusão, sustentabilidade ou justiça climática, mas mantêm intocadas as estruturas de concentração de riqueza, são apresentadas como continuidade da velha economia sob outra linguagem. O mesmo vale para transições energéticas que não discutem o controle dos recursos naturais, a distribuição dos benefícios ou a incorporação de etapas tecnológicas e industriais dentro do país.
A formulação se contrapõe à lógica neoliberal, especialmente à austeridade tratada como resposta permanente, à desigualdade aceita como consequência do funcionamento dos mercados e à degradação ambiental administrada como custo secundário. Em seu lugar, o documento propõe articular justiça social, soberania nacional e sustentabilidade ambiental, juntamente com democracia, direitos humanos e cooperação multilateral.
Essa articulação é organizada em três pilares interdependentes. O social coloca a desigualdade, o trabalho digno, a economia do cuidado e o bem-estar no centro das decisões. O ambiental incorpora os limites planetários, a proteção da biodiversidade e os direitos de povos indígenas e comunidades locais às estratégias produtivas e territoriais. Já o econômico conecta as condições cotidianas da população à estrutura de incentivos, ao financiamento, às capacidades produtivas e à forma de inserção do Brasil no sistema internacional.
O documento rejeita a ideia de que esses pilares possam ser tratados separadamente ou compensados entre si. Crescimento econômico que amplie desigualdades ou destrua ecossistemas não atende à definição proposta. Da mesma forma, uma política ambiental que restrinja a produção sem criar empregos, tecnologia e alternativas de renda pode reproduzir assimetrias sociais e territoriais.
A transição para esse modelo é entendida como um processo político intencional. Ela depende de negociação entre atores sociais, capacidade de implementação, coordenação institucional e continuidade das políticas. Por isso, não ocorreria automaticamente pela modernização dos mercados, pela digitalização ou pela adoção isolada de tecnologias de baixo carbono.
Seis frentes
O primeiro eixo transforma o desenvolvimento em política de Estado. Isso envolve recuperar a capacidade de planejamento, financiamento e coordenação do poder público, além de articular União, estados e municípios com trabalhadores, setor produtivo, movimentos sociais e organizações da sociedade civil. As compras governamentais aparecem como um instrumento para orientar investimentos e estimular objetivos produtivos, tecnológicos, sociais e ambientais.
Essa mudança também exige novos parâmetros de avaliação. Em vez de concentrar a análise no Produto Interno Bruto, o livreto propõe incorporar indicadores de distribuição de renda, qualidade do emprego, cobertura de cuidados, emissões de gases de efeito estufa, bem-estar e resiliência climática.
O segundo eixo trata do trabalho, da redistribuição de renda e das condições de vida. Entre as agendas mencionadas estão a redução da jornada sem diminuição salarial, a regulação do trabalho por plataformas digitais, a formalização de vínculos, o financiamento de cooperativas e o fortalecimento da proteção previdenciária. A economia do cuidado ocupa posição própria, com propostas para ampliar equipamentos públicos, como creches e instituições de atendimento a pessoas idosas, e reconhecer o trabalho exercido majoritariamente por mulheres.
A transformação ecológica e a reorganização produtiva formam o terceiro eixo. A proposta é utilizar os ativos naturais e econômicos brasileiros para promover reindustrialização, agregação de valor e domínio tecnológico, em vez de restringir o país à exportação de recursos. Políticas industriais verdes, exigências de conteúdo local, bioeconomia, agricultura de baixas emissões e financiamento da transição energética integram essa frente.
O texto defende que a transformação produtiva seja articulada à justiça climática. Projetos de transição devem consultar povos indígenas e comunidades tradicionais, distribuir benefícios entre os territórios e oferecer proteção de renda e reconversão profissional aos trabalhadores dos setores atingidos pela descarbonização.
O quarto eixo reúne macroeconomia, finanças e incentivos. O livreto propõe revisar regras fiscais que restrinjam o investimento público, sem dispensar critérios para o uso dos recursos. Também defende mecanismos capazes de preservar investimentos durante períodos de crise, o fortalecimento do BNDES, maior progressividade tributária e a revisão de benefícios fiscais que não demonstrem geração de emprego, inovação ou retorno social.
Subsídios, crédito e compras públicas seriam condicionados a requisitos socioambientais verificáveis. Com isso, a estrutura de incentivos passaria a favorecer atividades alinhadas à transformação ecológica, à geração de trabalho protegido e ao desenvolvimento tecnológico.
O quinto eixo aborda tecnologia, inovação e soberania. A prioridade é ampliar a capacidade brasileira de definir suas agendas de pesquisa, dominar tecnologias e internalizar etapas produtivas estratégicas. O risco identificado é o país permanecer como fornecedor de minerais, energia, biodiversidade e dados para economias que concentram o conhecimento e o valor gerado por esses recursos.
Entre as medidas apresentadas estão investimentos em semicondutores, regulação da inteligência artificial, transparência algorítmica, proteção de dados, formação para novas ocupações e exigência de conteúdo tecnológico nacional nas compras públicas de saúde, energia, educação e segurança. A soberania de dados é tratada como parte da infraestrutura econômica e institucional do país.
O sexto eixo insere a política externa no centro da estratégia. O documento considera que o custo do financiamento, as regras de propriedade intelectual, a dependência do dólar e as assimetrias comerciais reduzem o espaço de decisão dos países em desenvolvimento. A resposta proposta combina reforma das instituições financeiras internacionais, cooperação monetária, transferência de tecnologia e integração produtiva entre países do Sul Global.
A América Latina e o Caribe aparecem como espaços para cadeias regionais de valor, compras públicas conjuntas e coordenação industrial. O livreto cita, entre outras possibilidades, acordos para tecnologias climáticas, aquisição regional de medicamentos e mecanismos multilaterais de financiamento da preservação ambiental.
Os seis eixos serão utilizados pela Plataforma CIPÓ e pelo Transforma como base para a construção de um banco de propostas e soluções. A iniciativa pretende reunir e sistematizar políticas públicas e medidas legislativas relacionadas ao trabalho, à transformação produtiva, ao financiamento, à tecnologia, à ação estatal e à cooperação internacional.
O documento completo Uma Nova Economia para o Brasil: bases para um projeto de desenvolvimento justo, sustentável e soberano está disponível para download, abaixo, nas versões em português e inglês.
