Este artigo foi produzido com base em informações e dados disponíveis até 11 de março de 2026. Eventuais mudanças ocorridas após essa data não estão refletidas na análise.
Por Pedro Paulo Zahluth Bastos (Professor titular do IE-Unicamp e pesquisador do Transforma)
A política externa de Trump é a reorganização mais coerente e radical da grande estratégia estadunidense desde a inauguração do imperialismo neoliberal que, a partir dos anos 1980, expandiu a globalização e construiu as redes de interdependência financeira, tecnológica e comercial através das quais o poder estadunidense passou a operar. O que Trump promove não é uma ruptura com essas estruturas, mas sua reorientação para finalidades radicalmente distintas: assegurar a supremacia estadunidense na rivalidade com a China, amparado em uma ideologia etnonacionalista que substitui o universalismo liberal por uma hierarquia civilizacional centrada na supremacia branca ocidental.
A grande estratégia imperial também almeja o prolongamento global do capitalismo fóssil. Seu lema é a “dominância energética”. Domesticamente, energia fóssil barata é vista com precondição da reindustrialização e para assegurar custos baixos para os Data Centers da inteligência artificial; internacionalmente, visa prender aliados e economias subordinadas à dependência de exportações fósseis controladas pelos EUA, manter o dólar como meio de pagamento do mercado de energia, e estrangular as cadeias de tecnologia renovável chinesa via tarifas, acordos sobre minerais críticos e eliminação de subsídios a energia limpa. Dominância energética, hegemonia do dólar e capitalismo fóssil formam uma tríade indissociável cujo funcionamento exige o aprofundamento do controle imperial sobre os suprimentos globais de energia.
Essa lógica ilumina os eventos recentes no Hemisfério Ocidental. A invasão da Venezuela e a captura de Maduro operam como demonstração de força hemisférica — a “Doutrina Donroe” em ação —, controlando exportações venezuelanas de petróleo (inclusive para China e Cuba) e intimidando governos da região. A asfixia de Cuba, com importações de petróleo zeradas pela primeira vez em uma década, demonstra a diplomacia coercitiva em seu ponto máximo: não forçando obediência direta, mas elevando enormemente os custos políticos da solidariedade latino-americana.
A Doutrina Donroe opera com versatilidade: via aliados entusiastas (o acordo com a Argentina de Milei, que contorna o Mercosul e expõe a indústria nacional à concorrência estadunidense) ou via instrumentalização de instituições nacionais (a reversão judicial da concessão portuária chinesa no Panamá). Trump não quer expandir o “isolacionismo” desejado por alguns intelectuais do MAGA do território dos EUA para o Hemisfério Ocidental: quer ter nele uma base segura de insumos estratégicos e apoio político (ensaiado pela criação do grupo militar Escudo das América no dia 07 de março na Florida) para projetar poder global em um conflito tido como “civilizacional” contra o Partido Comunista da China (como Marco Rubio e Pete Hegseth se referem à China).
A guerra EUA-Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026 com o assassinato de Khamenei, constitui o teste mais consequente dessa reorientação estratégica. Do ponto de vista de Trump, a campanha não se explica pela não-proliferação nuclear: foi Trump quem eliminou, em 2018, o acordo (JCPOA) negociado por Obama em que o Irã se submetia à fiscalização externa de seu programa de energia nuclear. O Irã possui a quarta maior reserva de petróleo do mundo e sua integração às cadeias energéticas chinesas aprofundou-se desde a eliminação do JCPOA. Como David Harvey argumentou sobre a Guerra do Iraque, o controle sobre o petróleo do Oriente Médio não serve primariamente para garantir suprimento para os EUA, mas para manter um ponto de estrangulamento estratégico sobre as fontes de energia de rivais potenciais. Uma mudança de regime em Teerã favorável aos EUA faria o que as sanções não conseguiram — permitir cortar, se necessário, a integração iraniana e de todo o Golfo Pérsico às cadeias energéticas chinesas. Ademais, eliminaria um recurso de poder à disposição da Rússia, que habitualmente negociava limitar apoio militar ao Irã em troca de limitação do tipo de armas à disposição da Ucrânia.
Ao propor comparar a inflação do petróleo a curto prazo com o benefício de longo prazo do controle do petróleo iraniano, Jarrod Agen, diretor-executivo do National Energy Dominance Council criado por Trump, admitiu o seguinte em 11 de março: “Esta é uma estratégia de longo prazo, pois o que queremos é tirar as enormes reservas de petróleo do Irã das mãos dos terroristas. Assim, o que vamos enfrentar aqui no curto prazo é amplamente compensado pelo benefício a longo prazo, pois, no fim das contas, não teremos mais que nos preocupar com esses problemas no Estreito de Ormuz, já que vamos tirar todo o petróleo das mãos dos terroristas.”
Trump não quer mais preservar a “ordem internacional baseada em regras” em torno da ONU e simplesmente desrespeitá-la hipocritamente como fizeram todos os presidentes dos EUA desde 1945: ele quer eliminá-la em nome do unilateralismo sem limites. Se a captura de Maduro foi um sinal claro, a guerra contra o Irã leva essa eliminação para outro nível ao abraçar abertamente as teorias israelenses de guerra — ataques preemptivos, assassinatos de líderes, desprezo por regras de engajamento —, generalizando uma doutrina bélica cuja aplicação no genocídio em Gaza deixava Israel crescentemente isolado. A aquiescência dos aliados ocidentais que há um mês defendiam regras universalistas quando a Groelândia estava na linha de tiro é impressionante pela rapidez na normalização da nova ordem baseada na ausência de regras: Merz declarou ser “inútil debater a legalidade” e Carney apoiou os ataques “com pesar”.
Contudo, a guerra expõe uma tensão decisiva. O que constitui “vitória” difere marcadamente entre EUA e Israel. Israel busca a destruição total da infraestrutura dos pilares institucionais do regime iraniano, indiferente à estabilidade do Irã pós-guerra. Seus ataques a 30 depósitos de combustível em Teerã em 8 de março ultrapassaram o que Washington esperava, provocando a primeira divergência significativa entre os aliados. Os EUA pediram que Israel suspenda os ataques à infraestrutura energética iraniana — não por benevolência, mas porque a lógica da “dominância energética” exige que essas reservas sejam capturadas intactas, não destruídas. Se o regime mudar, Trump teria uma alavanca sobre a reprodução da economia chinesa que contrabalança a dependência estadunidense de minerais críticos e terras raras oriundos da China. A destruição israelense da infraestrutura energética iraniana não apenas provoca alta nos preços do petróleo e retaliação iraniana contra instalações do Golfo — que já fechou efetivamente o Estreito de Ormuz e elevou os preços em mais de 25% —, mas compromete o próprio prêmio estratégico que justifica a guerra do ponto de vista da grande estratégia imperial. Para Netanyahu, o Irã é uma ameaça existencial a ser destruída a qualquer custo; para Trump, é um ativo energético a ser controlado — e a divergência entre destruição e controle revela a contradição no coração da aliança.
A divergência sobre os objetivos da guerra ilumina a contradição mais ampla do projeto trumpista. A estratégia busca maximizar o controle sobre as redes criadas pelo imperialismo neoliberal enquanto reorganiza o sistema internacional em bases etnonacionalistas e unilaterais — preservar instrumentos de poder enquanto destrói seus princípios constitutivos. Contudo, ao extrair tributo máximo pela coerção em vez do consentimento, Trump pode acelerar a multipolaridade que busca evitar, induzindo a proliferação de acordos e alianças que evitam os EUA. Sua consequência última é ecológica: o sucesso da estratégia imperial depende da extensão indefinida do capitalismo fóssil no momento preciso em que a emergência climática exige seu desmantelamento acelerado. A questão não é se esse projeto prevalecerá a médio prazo — suas contradições internas e a resistência que gera sugerem que não —, mas a que custo humano, institucional e ambiental sua crise se desdobrará.
