Evento

Festival de Ideias articula economia, justiça climática e democracia na Unicamp

As estruturas econômicas necessárias para enfrentar a crise climática dependem de decisões sobre produção, investimento, trabalho, propriedade e distribuição de renda. Esse foi o ponto de partida do Festival de Ideias 2025, realizado em 6 de novembro, na Unicamp. Com o tema “Economia Política de um Futuro Justo e Sustentável”, a segunda edição reuniu pesquisadores, formuladores de políticas, representantes de movimentos sociais, gestores públicos, comunicadores e estudantes para discutir alternativas aos problemas ambientais, sociais e institucionais que atravessam o século XXI.

Organizado pelo Transforma, o encontro contou com dezenas participantes distribuídos em 11 sessões, painéis e plenárias. A programação ocorreu em diferentes espaços do campus e tratou de política industrial verde, transformações do trabalho, financiamento climático, igualdade racial e de gênero, comunicação, democracia, cooperação internacional e reorganização das forças políticas.

O festival foi realizado às vésperas da COP30, em Belém, quando as negociações climáticas recolocavam em pauta a responsabilidade dos países desenvolvidos, os compromissos de financiamento e as estratégias nacionais de transição. Os debates na Unicamp partiram desse contexto para examinar quem controla os recursos, quais setores assumem os custos e de que maneira as políticas ambientais podem alterar as estruturas produtivas e distributivas.


II Festival de Ideias

Na sessão de abertura, Marco Antonio Rocha, diretor executivo do Transforma, apresentou o festival como espaço de aproximação entre universidade, sociedade civil, movimentos sociais e organizações políticas. Sua intervenção situou a emergência ambiental ao lado da concentração de renda e poder, da desestruturação do multilateralismo e das mudanças tecnológicas que afetam o trabalho.

Juliano Medeiros, diretor do Instituto Futuro, relacionou a transição ecológica à possibilidade de reindustrialização do Brasil, geração de empregos e revisão da posição ocupada pelo país na divisão internacional do trabalho. Adriana Abdenur, copresidente do Global Fund for a New Economy, chamou atenção para a necessidade de articulação internacional entre universidades, organizações, comunicadores e movimentos sociais. Célio Hiratuka, diretor do IE, e Adriana Nunes, representante da Reitoria, ressaltaram o papel da universidade pública na produção e na circulação de conhecimento voltado aos problemas sociais.

Os projetos em disputa depois do neoliberalismo

A mesa “Neoliberalismo em crise: o que vem depois?”, mediada pelo professor Pedro Paulo Zahluth Bastos, examinou o alcance dessa crise e os projetos que procuram ocupar o espaço político aberto pelo desgaste do modelo. Participaram Samantha Ashman, Armando Boito Jr., Carys Roberts, Juliano Medeiros e Clara Mattei.

Samantha Ashman analisou os riscos de um novo extrativismo associado à transição energética. A partir das experiências da África Austral, discutiu projetos de hidrogênio verde, exploração de minerais críticos e financiamento condicionado à privatização de infraestruturas. Segundo sua análise, a mudança da matriz energética pode reproduzir relações coloniais quando os territórios do Sul Global fornecem terra, água e recursos naturais para atender à demanda industrial dos países centrais.

Armando Boito Jr. propôs uma distinção entre crise e instabilidade. Para ele, o neoliberalismo enfrenta perda de legitimidade e dificuldades de reprodução política, mas uma crise pressupõe a existência de uma alternativa capaz de disputar a hegemonia. O avanço da extrema direita indicaria o enfraquecimento do consenso neoliberal, embora preserve parte de sua política econômica e de sua relação com os interesses dominantes.

Carys Roberts apresentou a experiência britânica de privatização de serviços, austeridade fiscal, estagnação dos salários e deterioração da capacidade estatal. A pesquisadora abordou propostas de política industrial verde, investimento público e participação do Estado nos retornos gerados pela transformação produtiva. Clara Mattei tratou a austeridade como forma de intervenção estatal que transfere recursos e amplia a dependência dos trabalhadores em relação ao mercado, ao mesmo tempo que protege os rendimentos privados.

Juliano Medeiros descreveu o período como uma etapa de disputa entre projetos. Entre eles estão a ascensão chinesa, o nacionalismo econômico de direita e a tentativa europeia de recompor sua posição. Sua intervenção defendeu a formulação de uma alternativa latino-americana, com integração regional, ação política coordenada e enfrentamento da crise climática como eixo de um programa econômico abrangente.

Comunicação, plataformas e disputa democrática

As condições políticas para sustentar outro modelo econômico também dependem da circulação pública das ideias. Esse foi o tema da mesa “Política e comunicação na era da pós-verdade”, mediada pela jornalista Paula Cesarino Costa. O debate reuniu profissionais da comunicação, pesquisadores e especialistas em tecnologia para analisar desinformação, algoritmos, linguagem jornalística, regulamentação das plataformas e mobilização social.

André Aranha apresentou experiências de comunicação popular que traduzem argumentos econômicos por meio de recursos gráficos, publicações impressas e materiais de formação. A discussão apontou que a comunicação econômica exige precisão conceitual, porém precisa alcançar públicos que permanecem fora dos circuitos acadêmicos e das redes digitais controladas por sistemas de recomendação.

Nina da Hora examinou o funcionamento dos algoritmos, a produção de imagens sintéticas e a disseminação de desinformação. Para a pesquisadora, o combate aos efeitos políticos dessas tecnologias requer participação de cientistas da computação, jornalistas e especialistas em políticas públicas desde a elaboração das regras. Ela também defendeu estratégias que articulem comunicação digital, presença nos territórios e capacidade de sensibilização.

Dan Vockins discutiu a infraestrutura de comunicação construída durante décadas por organizações neoliberais. Sua análise destacou o papel de redes de especialistas, centros de pesquisa e porta-vozes preparados para intervir rapidamente no debate público. Giovanna Vial abordou os efeitos da linguagem jornalística na representação de conflitos e populações submetidas à violência, com atenção à identificação dos agentes, ao uso da voz passiva e à diferença de tratamento conferida às vítimas.

As intervenções convergiram na necessidade de transformar audiência em participação política. O volume de seguidores, visualizações e compartilhamentos não produz, isoladamente, organização social. Por isso, o debate associou presença nas plataformas, formação política, produção de narrativas próprias e reconstrução de vínculos coletivos.

Financiamento climático e desigualdade

A distribuição dos recursos necessários à transição foi examinada na mesa “Mutirão Solidário para um financiamento climático igualitário”, mediada por Isabel Ferreira. Patrick Brown apresentou uma consulta realizada com organizações da sociedade civil, governos, instituições financeiras, comunidades indígenas e pesquisadores. O processo reuniu contribuições de centenas de participantes e identificou instrumentos de financiamento passíveis de articulação entre países do Sul Global.

O debate partiu de três problemas: os recursos disponíveis permanecem abaixo das necessidades estimadas, uma parcela limitada chega diretamente às comunidades e parte do financiamento é concedida por meio de empréstimos que ampliam o endividamento. Patrick Brown defendeu mecanismos orientados por equidade, transparência, controle comunitário e capacidade de produzir benefícios duradouros nos territórios.

Camila Moreno analisou a relação entre descarbonização, financeirização e digitalização. Segundo a pesquisadora, os mercados de carbono e a busca por reduções de emissão de menor custo podem aumentar a pressão sobre terras indígenas, quilombolas, ribeirinhas e áreas coletivas situadas nas regiões tropicais. A transição, portanto, exige regras capazes de impedir que o financiamento ambiental converta territórios e bens comuns em ativos financeiros submetidos à rentabilidade privada.

Eduardo Suplicy retomou experiências de renda básica financiadas por fundos públicos e receitas provenientes de recursos naturais. A discussão incluiu a possibilidade de vincular proteção social, redução das desigualdades e políticas climáticas. Marina Bragante abordou a atuação dos municípios, a necessidade de soluções locais permanentes e as restrições fiscais enfrentadas pelas administrações que lidam diretamente com os efeitos de eventos extremos.



Realizado pelo Transforma em parceria com a Unicamp, o Global Fund for a New Economy e o Instituto Futuro, o Festival de Ideias 2025 deu continuidade à edição de 2024, dedicada ao tema “Poder e Prosperidade em um Mundo Multipolar”. A nova programação ampliou o diálogo entre economia, ciência política, ecologia, tecnologia e comunicação, além de fortalecer a cooperação entre participantes do Brasil e de outros países.

Os registros do encontro permitem acompanhar os argumentos desenvolvidos nas mesas e situar as divergências presentes em cada debate. A playlist completa do Festival de Ideias 2025 disponibiliza as sessões gravadas.

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