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O sul global como palco para o multilateralismo – COP30  e G20

Marco Rocha | Diretor Executivo do Transforma
Iago Montalvão | Coordenador Executivo do Transforma

Durante o mês de novembro, o Transforma esteve presente em dois espaços de grande importância para as negociações multilaterais entre países: a COP30, a Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), e o G20, encontro que reúne as 19 maiores economias do mundo, além da União Africana e da União Europeia.

Esses encontros têm objetivos distintos, mas ambos se tornaram fundamentais para que os países do Sul Global ampliem sua capacidade de influenciar decisões políticas e diplomáticas internacionais. Isso porque essas nações possuem pouca participação e capacidade limitada de incidência nas instituições multilaterais tradicionais, como o Banco Mundial, o FMI e o Conselho de Segurança da ONU. Assim, encontram nesses espaços a oportunidade de apresentar suas demandas aos países desenvolvidos e de pressionar por transformações na geopolítica e na governança global.

Mais de 30 anos após a Conferência Rio-92 — que inaugurou a UNFCCC —, um importante fórum de discussão sobre a agenda climática voltou ao Brasil. Pela primeira vez, o país sediou uma COP, realizada em Belém, no coração de um dos biomas mais estratégicos para a manutenção da temperatura global dentro de limites seguros: a Floresta Amazônica. A COP30 ocorreu em um cenário de grandes desafios, marcado pelo avanço contínuo das emissões de gases de efeito estufa, que ainda não foram interrompidas. A ciência e a sociedade civil demandam decisões mais ambiciosas e ações concretas de maior urgência.

Além disso, esta edição enfrentou um dos principais impasses deixados pela COP29, realizada em Baku, no Azerbaijão: o financiamento climático. Os países do Sul Global reivindicam US$ 1,3 trilhão por ano para cumprir suas metas climáticas e ambientais — uma demanda que permanece no centro das negociações e evidencia a desigualdade estrutural na governança internacional.

O governo brasileiro, que presidiu a conferência, estabeleceu duas prioridades fundamentais: aumentar o nível de implementação das decisões já acordadas e conferir maior centralidade ao tema da adaptação climática, crucial para os países mais pobres e vulneráveis. Ao fim do encontro, houve avanços importantes nesse eixo, com a definição da meta de triplicar o financiamento para a adaptação climática até 2035 e a criação do Objetivo Global de Adaptação. No entanto, mesmo com as tentativas do governo brasileiro, não foi possível chegar a um acordo no documento final sobre a criação de um Mapa do Caminho de transição para longe dos combustíveis fósseis. No entanto, a presidência da COP, sob o comando brasileiro,  se comprometeu a elaborar essa proposta ao longo do próximo ano e a organizar uma conferência em 2026 liderada pela Colômbia.

Em meio a avanços e resistências, a COP continua sendo um espaço marcado por limitações estruturais: a resistência de alguns países a avançar na agenda climática, a influência do lobby de setores econômicos contrários à transição energética e a dificuldade recorrente de transformar acordos em ações efetivas. Ainda assim, os países do Sul Global seguem reivindicando maior ambição na transferência de recursos do Norte para o Sul, não como caridade, mas como reparação histórica.

No entanto, esse debate não pode ser tratado isoladamente, como se dependesse apenas de compromissos financeiros pontuais. O financiamento climático não pode mais ser uma forma de ampliar o endividamento dos países mais pobres ou de mascarar novos mecanismos de neocolonialismo verde. Garantir recursos adequados e justos exige uma transformação estrutural profunda, que passa por romper com a hierarquia financeira e monetária global, democratizar as instituições financeiras multilaterais e criar mecanismos de cooperação e de transferência tecnológica.

E isso é apenas o começo. Afinal, mudar a trajetória da relação entre a humanidade e a natureza implica uma mudança sistêmica que supere a lógica da acumulação financeira infinita, acelerada e concentradora, movida exclusivamente pelo lucro. Ainda assim, e com todas as dificuldades envolvendo o avanço na agenda climática, a COP tem conseguido atrair mais atenção do ativismo global e das burocracias estatais do que fóruns mais gerais como o G20.

O Transforma lançou, durante o encontro do G20, em Joanesburgo, um relatório crítico, produzido em cooperação com mais quatro organizações de três países (https://neweconomics.org/2025/11/the-g20-at-a-crossroads), com o objetivo de avaliar a evolução recente do G20 diante das agendas mais relevantes para o Sul Global. O relatório ressaltou justamente aquilo que foi a marca do encontro do G20 desse ano, seu esvaziamento usual em tempos de relativa estabilidade econômica, característica de um fórum com grande dificuldade de se mover para além da agenda de curto prazo da solução de crises econômicas agudas, abraçando agendas mais amplas e relacionadas com a construção de uma economia global estruturalmente mais estável. Isso se traduz, por exemplo, na dificuldade do fórum em avançar em discussões como a transição ecológica justa, a renegociação das dívidas externas de países pobres altamente endividados e a redução da desigualdade extrema.

Com a ausência do presidente da República Popular da China e o boicote do governo Trump ao encontro do G20 e seu consequente esvaziamento, a África do Sul utilizou bem o encontro para  promover sua liderança regional e, sobretudo, o Social Summit como plataforma para sua agenda regional. Como ponto em comum entre os dois fóruns, ficou a sensação de um multilateralismo com o futuro cada vez menos promissor.

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