Por Angélica Huerta (Coordenadora de Pesquisa do Transforma)
O cenário global para 2026 é desafiador e desalentador. Este texto aborda brevemente o cenário econômico previsto para 2026 como resultado das tarifas dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, relembra a importância da imaginação e do otimismo como formas de resistência para enfrentar os problemas que temos hoje e os que ainda nos aguardam.
Consequências das tarifas impostas pelos Estados Unidos. As tarifas do governo de Donald Trump têm sido, em grande medida, a causa de uma incerteza econômica e política em nível internacional, o que vem se traduzindo em menor investimento no setor real e maior vulnerabilidade dos mercados financeiros globais. A seguir, isso é exemplificado nos casos dos Estados Unidos, União Europeia, Japão, China e América Latina.
Estados Unidos. As tarifas, longe de gerar a esperada substituição de importações desejada por Trump, resultaram em dois cenários para o país. Por um lado, as tarifas e a incerteza quanto à sua duração desaceleraram o crescimento do investimento real nos mercados dentro e fora do território americano. Por outro lado, as tarifas, em um contexto de taxas de juros acima do crescimento econômico e contração do gasto público, provocaram a erosão dos lucros dos produtores norte-americanos e do poder de compra dos consumidores. A demanda interna e o crescimento foram afetados. (IMF, outubro de 2025, World Economic Outlook, p. 3)
União Europeia. A União Europeia enfrenta problemas de crescimento, desemprego e inflação. Caso nada mude, é possível imaginar a intensificação desses problemas no próximo ano. Esses desafios se devem, em parte, a problemas no abastecimento de petróleo, bem como às tarifas impostas pelo governo de Trump à União Europeia. Por um lado, a importação de energia proveniente dos Estados Unidos tem se tornado cada vez mais cara desde o ano de 2021. Por exemplo, o custo da eletricidade na Alemanha foi de 38,78 EUR/MWh em dezembro de 2020, chegou ao pico máximo de 699,44 EUR/MWh em agosto de 2022 e, neste mês de dezembro, é de 96,88 EUR/MWh (Trading Economics, 2025). Se bem que os custos já tenham baixado consideravelmente desde 2022, ainda estão acima dos níveis anteriores a 2020. Os custos crescentes da energia afetaram a dinâmica de acumulação em diversas indústrias europeias, especialmente na Alemanha, como nas indústrias química e automobilística. Por outro lado, as tarifas impostas à União Europeia estão acompanhadas da exigência de que a Europa realize investimentos de 750 bilhões de dólares nos Estados Unidos nos próximos três anos, além de manter um orçamento de 5% do PIB para as forças armadas como membro da OTAN. Essas condicionantes implicam: 1) tarifas e aumento de preços sobre produtos importados, como o petróleo; e 2) maiores investimentos e compras dos Estados Unidos e de sua indústria militar, em detrimento de um menor investimento dentro da própria Europa.
Japão. Dois cenários impõem um contexto de restrição ao crescimento do Japão e obscurecem sua capacidade de investimento interno. Por um lado, os Estados Unidos, em sua guerra tarifária, além de impor tarifas de 15%, condicionaram o país a realizar investimentos de 600 bilhões de dólares nos próximos três anos, o que reduz sua capacidade de investimento e crescimento interno. Por outro lado, a primeira-ministra do mesmo país, Sanae Takaichi, tem promovido uma agenda de políticas restritivas: A) a taxa básica de juros prevista para o final do mês (0,75%) está acima do crescimento econômico (0,5%); e, simultaneamente, B) também planeja uma queda paulatina do gasto público a partir de abril de 2026 até 2027 (Reuters, 2025). Dadas essas políticas, é possível esperar para 2026 uma queda ainda maior da atividade econômica japonesa.
China. A China é afetada por dois fatores: a guerra tarifária do governo Trump e a crise no setor imobiliário. Os efeitos do primeiro fator se agravam mês a mês, em prejuízo da economia chinesa. A tarifa atual de 47%, e a prevista de 57%, fizeram com que as exportações chinesas para os Estados Unidos caíssem 18% nos primeiros dez meses deste ano, em comparação com o mesmo período de 2024 (CNN Brasil, 2025). Embora a China tenha tentado contrabalançar esses efeitos por meio do aumento das exportações para outros países, os Estados Unidos têm utilizado seu soft power para induzir o restante do mundo a reduzir as importações provenientes da China. Isso ocorreu recentemente com o México, o Brasil e outros países na semana passada. Em relação à crise imobiliária e à incapacidade de pagamento dos incorporadores da Evergrande em 2021, vislumbra-se para 2026 o risco de insolvência sistêmica em outras empresas do setor imobiliário. Entre o início de 2025 e o mês de novembro, o investimento em imóveis caiu 15% em relação ao período anterior.
América Latina. É possível concluir que alguns países da América Latina poderão enfrentar uma queda nas exportações e nos fluxos de investimento estrangeiro devido a: A) a guerra tarifária dos Estados Unidos; e B) a desaceleração econômica e do investimento já observada nos Estados Unidos, China, Japão e União Europeia. Entre os efeitos das políticas externas, somados às políticas internas — monetárias e fiscais restritivas —, destacam-se: 1) a queda do crescimento econômico e do emprego; 2) o agravamento dos problemas de balanço de pagamentos e pressões sobre a taxa de câmbio; e 3) a incapacidade de pagamento da dívida externa.
Problemas financeiros. Problemas financeiros no setor privado também poderão marcar 2026. Por um lado, o mercado de capitais encontra-se sobrevalorizado (Otaviano Canuto, 2025). Por outro, a desaceleração das economias poderá afetar a valorização das ações, o que, diante da estagnação ou queda de seus preços, poderá levar a problemas de insolvência.
A resposta dependerá das margens de manobra de cada país e de como utilizarão suas políticas econômicas para enfrentar os problemas. Os países da América Latina possuem um espaço de política bastante reduzido devido à sua elevada dependência de capital estrangeiro. Os mecanismos pelos quais a região tem atraído esse capital — altas taxas de juros, austeridade fiscal e estabilidade cambial — são insustentáveis e atentam contra o emprego e o crescimento interno.
Para aqueles interessados em realidades econômicas e materiais voltadas ao bem público, é importante lembrar a necessidade de permanecer propositivos, críticos e não cair no pessimismo. Há espaço para ação coletiva, conscientização e batalhas a serem conquistadas no campo das ideias. Precisamos construir realidades diferentes que transformem a economia em prol do interesse público.
