A queda do desemprego brasileiro ao menor nível da série histórica reacendeu o debate sobre pleno emprego. No terceiro trimestre de 2025, a taxa nacional chegou a 5,6%, segundo a PNAD Contínua. Mas a melhora do indicador agregado não responde a uma questão central: quem continua sem conseguir trabalho no Brasil? É essa pergunta que orienta a Nota de Economia #21, intitulada “Quem não conseguiu emprego no Brasil em 2025? Uma análise por raça, gênero e região”, de Gabriel Lucena de Mattos, Caroline Lima de Oliveira e Pedro Henrique Costa, publicada pelo Transforma.
O estudo parte da constatação de que o debate sobre pleno emprego não pode se limitar à taxa de desocupação. Embora o desemprego esteja em seu menor patamar desde o início da série da PNAD Contínua, em 2012, a subutilização da força de trabalho ainda alcança 13,9%. Esse indicador considera desocupados, pessoas disponíveis que não procuraram trabalho e ocupados que trabalham menos horas do que poderiam. Entre mulheres negras, a taxa chega a 20,6%; entre homens brancos, fica em 9,8%.
A nota mostra que o mercado de trabalho brasileiro segue atravessado por desigualdades de raça, gênero e região. Pessoas negras, mulheres e moradores do Norte e do Nordeste apresentam, em geral, taxas mais altas de desemprego, subutilização e informalidade. A informalidade permanece próxima de 47% no conjunto do país, mas atinge patamares próximos a 50% entre homens e mulheres negras. No recorte regional, as diferenças também são expressivas: Pernambuco registra desemprego de 10%, enquanto Mato Grosso apresenta 2,3%; no Maranhão, a informalidade chega a 67%, contra 36% em Santa Catarina.
Ao analisar a população “sem emprego” — composta por desocupados, força de trabalho potencial e desalentados —, o estudo identifica forte concentração racial e de gênero. A população negra representa 67,1% desse contingente. As mulheres negras são o grupo mais afetado: somam 4,3 milhões de pessoas, o equivalente a 38,9% do total. Mais da metade delas está na força de trabalho potencial, ou seja, disponível para trabalhar, mas sem ter buscado emprego no período analisado.
A pesquisa também evidencia o peso da divisão sexual do trabalho. Entre mulheres na força de trabalho potencial, mais da metade das brancas e negras não procura emprego por dedicação aos afazeres domésticos e ao cuidado de familiares. Entre homens brancos e negros, os principais motivos estão associados aos estudos e a problemas de saúde. O desalento, por sua vez, atinge de forma mais intensa a população negra e as regiões Norte e Nordeste.
A apresenta diferentes interpretações teóricas sobre pleno emprego e desemprego, confrontando abordagens ortodoxas com perspectivas críticas sobre mercado de trabalho, desigualdade racial e divisão sexual do trabalho. A análise mostra que baixos níveis de desemprego aberto podem conviver com informalidade elevada, subutilização persistente e barreiras estruturais de acesso ao trabalho decente.
Ao recolocar raça, gênero e território no centro da análise, o estudo argumenta que não há base suficiente para afirmar que o Brasil tenha alcançado pleno emprego em sentido amplo. O mercado de trabalho está aquecido, mas continua operando de forma desigual, com grupos sociais submetidos a trajetórias distintas de inserção, exclusão e precariedade.
