A transição energética e a agenda de descarbonização têm redefinido o papel dos bancos públicos de desenvolvimento no mundo. No Brasil, esse processo passa diretamente pela reconfiguração do BNDES, cuja atuação histórica como financiador direto de longo prazo vem sendo progressivamente substituída por funções de estruturação de projetos e mitigação de riscos para o capital privado.
Essa é a tese central do artigo “BNDES sob o Consenso de Wall Street”, assinado pelo economista Iago Montalvão e publicado na revista Phenomenal World. O texto analisa como, a partir da década de 2010, mudanças institucionais e financeiras deslocaram o banco de seu papel tradicional no financiamento do desenvolvimento para um modelo alinhado à lógica da financeirização verde.
O artigo examina a redução do funding público, a substituição da TJLP pela TLP e a crescente centralidade de instrumentos como debêntures, títulos verdes, blended finance e mecanismos de de-risking. Segundo a análise, esse movimento reposiciona o Estado como garantidor de riscos e facilitador de investimentos privados, ao mesmo tempo em que enfraquece sua capacidade de planejamento estratégico e coordenação industrial.
No campo das energias renováveis, o autor mostra que, embora o volume de investimentos tenha crescido, houve aumento da dependência de capital estrangeiro, flexibilização de exigências de conteúdo nacional e maior volatilidade nos desembolsos. Programas recentes, como o Eco Invest Brasil, ampliam a escala do financiamento climático, mas reforçam a transferência de riscos ao setor público sem recompor plenamente os instrumentos de crédito concessional.
A conclusão do artigo aponta que uma transição ecológica socialmente justa e economicamente soberana exige mais do que engenharia financeira. Requer o fortalecimento de bancos públicos, a retomada do financiamento direto em condições favoráveis e a centralidade do Estado na definição das prioridades de investimento.
